O Irã colocou na mesa um plano de sete dias para encerrar um conflito que já dura sete meses e reabrir o estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. A proposta, entregue a Washington via mediadores, condiciona o fim do bloqueio naval à liberação de ativos congelados e à suspensão de sanções petrolíferas. O relógio começou a correr.
O anúncio veio do ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York. O cronograma é agressivo: cessar-fogo total — inclusive no Líbano —, liberação de pelo menos US$ 12 bilhões em fundos retidos, fim das sanções ao petróleo iraniano e encerramento do cerco naval. No sétimo dia, Hormuz reabre. No oitavo, começam as negociações nucleares abrangentes.
Por que o prazo de sete dias muda tudo
O memorando de entendimento assinado em junho previa 60 dias apenas para chegar à mesa de negociações. O novo formato comprime tudo em uma semana. Para analistas, a aceleração reflete a urgência de Teerã diante do colapso econômico interno e a tentativa de fisgar a atenção de Donald Trump antes das eleições de meio de mandato nos EUA.
“É uma jogada inteligente”, resume Ali Vaez, do International Crisis Group. “Encerra uma guerra impopular, derruba o preço da energia na reta final eleitoral e restabelece um acordo favorável ao Irã.”
As exigências iranianas em números
- US$ 12 bilhões em ativos congelados a serem liberados imediatamente
- 7 dias para implementação total, contra 60 dias do acordo anterior
- 7 meses de conflito desde os ataques de fevereiro que mataram o aiatolá Ali Khamenei
- 80 países liderados pelo Bahrein condenaram o bloqueio e pediram reabertura imediata
A contrapartida americana ainda não foi formalizada. Uma autoridade dos EUA confirmou conversas “positivas e construtivas” via mediadores catarianos, mas avisou: Washington não se precipitara. Marco Rubio, secretário de Estado, relatou reunião de três horas com intermediários do Qatar sem avanços decisivos.
O que Trump ganha — e o que rischia — ao aceitar
O presidente americano ameaçou o Irã com “aniquilação” caso não haja acordo, mas seu objetivo declarado é impedir a bomba nuclear por via diplomática. Um acerto antes das midterms entregaria dois trunfos domésticos: fim de uma guerra cara e alívio imediato nos preços da gasolina. O risco: ceder a um cronograma ditado por Teerã e reviver um arranjo que já fracassou uma vez.
Enquanto isso, a economia iraniana sangra. Inflação disparada nos alimentos, escassez de medicamentos e comércio paralisado criam pressão interna que o regime não pode ignorar por muito tempo. A proposta de Araghchi, que permanece em Nova York até segunda-feira (28), pode ser a última cartada antes de o cerco se tornar insustentável.
O que observar nas próximas 72 horas
Fique atento a três sinais: (1) confirmação oficial da Casa Branca sobre a liberação dos US$ 12 bilhões; (2) movimentação de petroleiros no estreito — o primeiro a cruzar sem escolta militar dirá mais que qualquer comunicado; (3) reuniões paralelas entre Steve Witkoff, Jared Kushner e a delegação iraniana, mediadas pelo Qatar. Se o fluxo de mensagens parar, o plano morre na largada. Se avançar, o mercado de energia precifica o fim da guerra antes do fim da semana.
