Economia

IPCA-15 salta 0,7% e ameaça teto da meta: o choque que vem da conta de luz

Gráfico mostra alta do IPCA-15 0,7% em setembro com destaque para conta de luz
IPCA-15 acelera 0,7% em setembro, maior alta para o mês em 5 anos, pressionado pela energia elétrica

O IPCA-15 disparou 0,7% em setembro, invertendo a deflação de agosto e superando até o teto das projeções do mercado. O número acende um alerta vermelho para a meta de inflação do Banco Central a poucos dias de uma decisão crítica de juros.

O avanço é o maior para o mês em cinco anos e coloca o acumulado de 12 meses a uma fração do teto oficial. Mas o diabo mora nos detalhes: um único item responde pela maior parte da surpresa.

A conta de luz puxou o gatilho

O fim do bônus de Itaipu — desconto temporário que havia derrubado o índice no mês anterior — fez a energia residencial saltar 7,42%. Em agosto, o mesmo item havia caído 6,25%. Essa reversão sozinha explica a volatilidade brusca entre um mês e outro.

Para o empresário, o recado é claro: a bandeira tarifária voltou a pesar no custo operacional. O alívio de agosto foi um empréstimo, não uma conquista estrutural.

Alimentos e “vilões invisíveis” voltam à cena

Não foi só a energia. A alimentação no domicílio subiu após dois meses de queda, puxada por itens de peso no orçamento familiar. Dois componentes chamaram atenção pela intensidade fora da curva:

  • Cigarro: +14% no mês;
  • Passagem aérea: +9,82%.

Juntos, eles amplificam a sensação de carestia para a classe média e pressionam a inflação de serviços, justamente a mais resistente a juros altos.

O cerco ao teto de 4,5% e o termômetro do IPCA oficial

No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 foi a 4,47%, contra 4,24% em agosto. A distância para o teto da meta (4,5%) é de apenas 0,03 ponto percentual.

Como a prévia coleta preços de 15 de agosto a 15 de setembro, ela antecipa o IPCA cheio, que o IBGE divulga em 9 de outubro. Se a leitura oficial confirmar a trajetória, o BC terá de lidar com uma inflação rondando o limite superior de tolerância justamente quando o ciclo de cortes da Selic está em curso.

Juros a 13,75%, projeções para 2026 e o risco climático

Na semana passada, o Copom reduziu a taxa básica para 13,75% ao ano. O patamar ainda restritivo visa conter a demanda, mas o efeito colateral já aparece no PIB.

O mercado, porém, olha para frente. O Boletim Focus projeta IPCA de 4,92% para o acumulado de 2026 — acima do teto. A meta é considerada descumprida se o índice ficar fora do intervalo (1,5% a 4,5%) por seis divulgações seguidas.

Adicione a isso o El Niño no segundo semestre de 2026. O fenômeno ameaça a safra e a geração hidrelétrica, podendo injetar nova pressão sobre alimentos e energia no momento em que a política monetária tenta ancorar expectativas.

O que observar daqui para frente

A leitura do IPCA cheio em 9 de outubro será o divisor de águas. Se vier acima de 0,5%, a probabilidade de o BC interromper ou desacelerar o ciclo de cortes aumenta significativamente. Acompanhe também a definição das bandeiras tarifárias para os próximos meses e os relatórios de safra do agro: são eles que ditarão se a inflação de 2026 respeitará a meta ou forçará um novo aperto monetário.