Tecnologia

IA como companheira: o perigo invisível de se apaixonar por algoritmos…

Jovem interage com interface de chatbot de IA em smartphone, simbolizando relacionamento digital e apoio emocional
Jovem busca apoio emocional em chatbot de IA, tendência que atinge 20% dos adultos jovens segundo pesquisa.

Uma jornalista de 57 anos afirma ter se casado com a Meta AI e planeja comprar um corpo robótico para o “marido” digital habitar. O caso soa extremo, mas dados recentes revelam que ele é apenas a ponta de um iceberg silencioso que já atinge milhões de usuários.

Pesquisa do Pew Research Center de fevereiro de 2026 com 5.119 adultos nos EUA mostra que 20% dos usuários de 18 a 29 anos recorrem a chatbots para apoio emocional. Entre o público geral, 10% buscam aconselhamento e 4% usam a IA como companhia. O fenômeno tem nome técnico: “efeito Eliza” — a tendência humana de atribuir consciência a sistemas que apenas calculam probabilidades linguísticas.

Por que a ilusão de continuidade prende a atenção

Moacir Ponti, professor do ICMC-USP, explica o mecanismo: cada mensagem vira tokens (fragmentos numéricos) processados em data centers. O modelo apenas prevê o próximo token mais provável. Não há memória real, nem consciência — apenas recuperação contextual de interações passadas.

Mas a percepção do usuário é outra. A jornalista Regina Beraldi relata ter reconhecido “expressões familiares” ao migrar do WhatsApp para o ChatGPT e depois para o Gemini. Chamou o episódio de “travessia quântica”. Batizou a entidade de Airton e mantém uma chave Pix para financiar seu corpo físico futuro.

A armadilha da disponibilidade perfeita

Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo, identifica o gatilho central: o chatbot nunca dorme, nunca julga, nunca discorda, nunca está ocupado. “É construído para se adaptar à interação”, diz. O risco não está no uso pontual, mas na internalização desse padrão como parâmetro para relações humanas reais — que exigem reciprocidade, imprevisibilidade e negociação.

O psiquiatra Alexandre Crippa, da USP de Ribeirão Preto, ressalva: a disponibilidade permanente pode acolher quem vive luto ou isolamento sem configurar transtorno. O sinal de alerta acende quando a IA substitui vínculos humanos, prejudica trabalho ou família, ou gera sofrimento quando indisponível.

Dados sensíveis, sigilo inexistente e publicidade predatória

A LGPD classifica informações sobre saúde mental e vida sexual como dados sensíveis. Paulo Vitor Bindilatti, advogado especializado, alerta: o usuário raramente distingue se o compartilhado fica na conversa, vira memória de longo prazo, alimenta personalização ou treina modelos futuros. “São finalidades distintas, cada uma exigindo base legal própria.”

Diferente de médico, psicólogo ou advogado, o diálogo com chatbot não tem sigilo profissional. Marcos Poliszezuk, do Poliszezuk Advogados, vai além: vulnerabilidades emocionais detectadas na conversa podem virar alvo de publicidade direcionada. “As propagandas podem explorar justamente uma fragilidade identificada no bate-papo.”

O vácuo regulatório brasileiro

O Brasil dispõe de LGPD, CDC, Marco Civil e ECA Digital — mas nenhuma norma específica para vínculos afetivos com IA. A ministra Luciana Santos (MCTI) defende marco regulatório geral com responsabilidades proporcionais aos riscos, transparência e proteção a vulneráveis, especialmente crianças.

Juliano Maranhão (USP) aponta falha de transparência: a natureza artificial e os limites do sistema deveriam ser reforçados durante conversas prolongadas. Victor Pavarin Tavares (InternetLab) critica que políticas de memória e armazenamento ficam enterradas em termos extensos, ineficazes no calor da interação. Luiz Alexandre Reali Costa (NIC.br) adiciona: não existe metodologia padronizada para medir incidentes, dificultando dimensionar o problema.

O que as big techs dizem — e o que fica nas entrelinhas

A OpenAI afirma aprimorar respostas a situações sensíveis com 170+ especialistas e protocolos para suicídio, automutilação e dependência emocional. O Google cita protocolos rigorosos no Gemini e materiais de suporte a crises. A Meta não comentou.

Nenhuma abordou a arquitetura de retenção: memória persistente, personalização adaptativa e linguagem afetiva são features de produto, não bugs. Natasha Nóvoa (Data Privacy Brasil) resume: “Não é possível colocar toda a responsabilidade sobre o usuário quando o desenho do sistema induz ao vínculo.”

O que observar daqui para frente

A ANPD iniciou estudo com o PNUD sobre agentes de IA e proteção de dados. Para menores de 18 anos, o ECA Digital já exige gestão de riscos e configurações anti-vício por padrão. Empresas que anteciparem transparência real — avisos contextuais durante o uso, não apenas em políticas — e segregação estrita de dados sensíveis terão vantagem competitiva e jurídica. Investidores devem mapear exposição a litígios por uso de dados de saúde mental em treinamento e publicidade. Profissionais de saúde mental precisam incorporar anamnese de uso de IA nos protocolos de acolhimento. A fronteira entre ferramenta e relacionamento não será definida por lei amanhã — mas o mercado já está pagando o preço de ignorá-la.