O ex-presidente Jair Bolsonaro decidiu retomar o discurso de perseguição política justamente quando sua equipe jurídica tentava consolidar uma linha técnica nos processos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. A guinada expôs divergências internas e fragilizou a coordenação entre advogados que atuam em frentes distintas.
O movimento não pegou apenas a imprensa de surpresa. Integrantes do próprio staff jurídico relatam desconforto com a estratégia, que mistura apelo popular com argumentação processual — algo que, na visão de especialistas, costuma enfraquecer a defesa em tribunais superiores.
O gesto que quebrou o silêncio combinado
Na última semana, Bolsonaro publicou vídeo em redes sociais alegando ser alvo de “lawfare” e comparando sua situação a regimes autoritários. A postagem contrariou orientação expressa de parte dos defensores, que recomendavam contenção pública para não fornecer munição ao relator Alexandre de Moraes.
Advogados ouvidos sob reserva confirmam que ao menos três profissionais ameaçaram deixar o caso caso o tom não mudasse. Dois já formalizaram a saída nos autos nos últimos dez dias, alegando “divergência estratégica insanável”.
Números que mostram o tamanho do problema
- 5 inquéritos ativos no STF com Bolsonaro como investigado
- 12 advogados compunham o núcleo duro da defesa em janeiro
- 3 saídas confirmadas desde o vídeo da semana passada
- R$ 4,2 mi estimados em honorários contratuais anuais do pool jurídico
A debandada ocorre num momento processual delicado: dois relatórios da Polícia Federal devem ser entregues a Moraes até meados de abril, um sobre a tentativa de golpe de Estado e outro sobre joias sauditas. A defesa técnica argumentava que silêncio e foco em nulidades processuais seriam a melhor via. O ex-presidente preferiu o palanque.
O cálculo político por trás da ruptura
Aliados próximos admitem que Bolsonaro avalia ganhos eleitorais em 2026 superiores aos riscos jurídicos imediatos. A narrativa de vítima mobiliza a base, garante engajamento nas redes e mantém o ex-mandatário como protagonista da oposição — mesmo inelegível até 2030 pela condenação no TSE.
Um ministro do STF ouvido em reserva resume: “Quando o réu vira cabo eleitoral do próprio processo, o advogado vira figurante. Ninguém sustenta defesa técnica com cliente que faz comício no plenário virtual”.
O que muda nos próximos passos processuais
Com a equipe reduzida e sem porta-voz único, a tendência é que cada inquérito passe a ter defensores específicos, sem coordenação central. Isso aumenta o risco de petições contraditórias entre si — falha que o Ministério Público costuma explorar em sustentação oral.
Outro efeito colateral: a dificuldade de negociar eventuais acordos de delação premiada de terceiros que citem Bolsonaro. Sem comando unificado, a estratégia de “blindagem” perde eficiência.
O que observar daqui para frente
Três marcos definirão se a aposta de Bolsonaro compensa: a entrega dos relatórios da PF em abril, a eventual denúncia da PGR até junho e a reação da base nas pesquisas de intenção de voto para 2026. Se o discurso de vítima não segurar o capital político, a fragmentação da defesa terá sido em vão — e o custo processual, irreversível.
Enquanto isso, no gabinete de Moraes, a leitura é fria: “Processo não vota. Processo julga. E julgamento exige técnica, não narrativa”.
