Cultura

200 mil visitantes e prêmios nos EUA: o caso CARDE que ninguém te contou

Museu CARDE em Campos do Jordão com automóveis históricos e arte moderna, 200 mil visitantes
Museu CARDE atinge 200 mil visitantes e premiações internacionais em dois anos.

O museu CARDE, em Campos do Jordão, acaba de cruzar a marca de 200 mil visitantes às vésperas de completar dois anos de operação. O número coloca a instituição — mantida pela Fundação Lia Maria Aguiar — no radar de quem acompanha a economia da cultura e o mercado de ativos de coleção no Brasil.

Mas o fluxo de pessoas é apenas a ponta do iceberg. Nos bastidores, a estratégia de mesclar automóveis históricos, arte moderna e educação já rendeu três premiações internacionais de peso nos Estados Unidos, sinalizando um modelo de gestão que une preservação de patrimônio e atratividade turística de alto padrão.

A exposição que explica o “case” de inovação nacional

Para marcar o momento, o museu inaugurou uma mostra temporária dedicada aos 70 anos da Romi-Isetta, ícone da industrialização brasileira. A exposição fica aberta até 12 de outubro e vai além da carroceria: expõe o arcabouço técnico e documental da Indústrias Romi S.A., cedido pela Fundação Romi.

O visitante acessa projetos originais, desenhos de engenharia e fotografias de época. É um mergulho nos bastidores da adaptação do microcarro italiano Iso Isetta para a realidade nacional, processo que resultou no primeiro automóvel de passeio fabricado em série no país, em junho de 1956.

Por que a Romi-Isetta ainda move dinheiro e atenção

O modelo exposto, uma versão 1959 Romi-Isetta 300 de Luxe, carrega atributos que colecionadores e investidores valorizam: originalidade, baixa tiragem e ruptura tecnológica.

  • Produção total estimada: pouco mais de 3.000 unidades entre 1956 e 1961.
  • Motorização: a versão de Luxe trouxe motor BMW, elevando torque e conforto sem perder a autonomia de 25 km/l.
  • Design exclusivo: porta frontal única com volante e painel móveis — solução inédita no mercado brasileiro da época.

A escassez de exemplares sobreviventes transforma cada unidade em ativo de alta liquidez no nicho de clássicos, com tendência de valorização contínua em leilões internacionais.

O modelo CARDE: imersão, acervo vivo e capital humano

O diferencial competitivo do museu não está apenas no metal exposto. A sigla CARDE — Carro, Arte, Design e Educação — dita a arquitetura da experiência. Os ambientes são cronológicos, recriando décadas do século XX com mobiliário assinado, obras de Candido Portinari, Di Cavalcanti, Vik Muniz, Frans Krajcberg e José Zanine Caldas, entre outros.

A mediação é feita por duas dezenas de monitores formados pela própria Fundação Lia Maria Aguiar. O investimento em capital humano especializado eleva o ticket médio da visita e garante retenção de público qualificado — famílias, pesquisadores e entusiastas de alto poder aquisitivo.

Validação global: o “efeito Pebble Beach” no interior de São Paulo

O reconhecimento internacional chegou rápido e em dose tripla na Monterey Car Week, na Califórnia, o “Oscar” do antigomobilismo mundial. Os troféus não são honoríficos; atestam a qualidade de conservação, procedência e raridade do acervo — fatores que impactam diretamente o valor de mercado da coleção.

  • 2025 – Pebble Beach: “Lap of Luxury” para o Isotta Fraschini Tipo 8A SS 1928 (o mais luxuoso do evento).
  • 2025 – The Quail: Prêmio máximo na categoria 30 anos da Ferrari F50 (protótipo 2 de 3 existentes).
  • 2026 – Pebble Beach: 2º lugar na categoria Clássicos Europeus >4L (Pré-guerra) para o Isotta Fraschini Tipo 8A Cabriolet d’Orsay 1925.

Essas vitórias funcionam como certificação de “grau de investimento” para os ativos sob guarda do museu, atraindo olhares de gestores de patrimônio e family offices globais.

O que observar daqui para frente

A combinação de acervo premiado, narrativa educacional estruturada e localização turística consolidada (Campos do Jordão recebe milhões de visitantes/ano) cria uma barreira de entrada alta para concorrentes. Para investidores e gestores culturais, o CARDE virou estudo de caso: como transformar paixão por automóveis em instituição perene, autossustentável e com projeção de marca global.

Fique atento à programação de exposições temporárias e à eventual abertura de visitas técnicas ao Centro de Referência e Pesquisa. São janelas raras para acessar documentação primária da história industrial brasileira — ativo intelectual que, bem gerido, gera receita via licenciamento, pesquisa e turismo de conhecimento.

Serviço rápido: Funcionamento de quinta a terça, das 10h às 18h (entrada até 16h30). Ingressos a R$ 160 (inteira) e R$ 80 (meia). Endereço: Rua Benedito Olímpio Miranda, 280, Alto da Boa Vista, Campos do Jordão – SP.