Oito candidatos participaram de dois debates transmitidos ao vivo; a equipe de verificação analisou 13 declarações e encontrou desde dados precisos até distorções perigosas. O resultado revela muito sobre o que está em jogo para a economia e a segurança do estado.
O encontro matinal reuniu Carlos Jordy (PL), Marcelo Crivella (Republicanos), Marcos Dias (Podemos) e Pedro Paulo (PSD). À tarde, foi a vez de Benedita da Silva (PT), Carlos Portinho (PL), Mônica Benício (PSOL) e Waguinho (Republicanos). A divisão obedeceu a critérios de representação no Congresso e intenção de voto em pesquisas recentes.
O rombo nas contas estaduais e a disputa pelo FPE
Marcelo Crivella acertou ao afirmar que o STF determinou a mudança na fórmula do Fundo de Participação dos Estados (FPE). Em junho de 2026, a Corte prorrogou as regras atuais até 30 de junho de 2027 — prazo improrrogável para que o Congresso aprove nova legislação. Hoje, a distribuição considera o inverso da renda per capita, o que beneficia unidades mais pobres.
Já a fala sobre o déficit fluminense merece atenção: o candidato disse que o Rio “gasta R$ 110 bilhões” há dois anos. Os números da Secretaria da Fazenda mostram arrecadação de R$ 106,1 bi (2024) e R$ 117,8 bi (2025). Houve déficit de R$ 2,4 bi em 2024, mas superávit de R$ 1,3 bi em 2025. A trajetória não é linear.
Marcos Dias trouxe números volumosos: renúncia fiscal federal de R$ 618,4 bi (projeção 2026, Unafisco) e estadual de R$ 24,14 bi (LOA 2026). Ambos confirmados. Para o empresariado, isso sinaliza pressão permanente por reforma tributária e revisão de benefícios.
Segurança: a ADPF 635 e o mapa do crime na Grande Rio
Carlos Portinho afirmou que a ADPF 635 “proibiu a entrada da polícia” nas favelas. A verificação classifica como #FAKE. A ação, movida pelo PSB em 2019, impôs regras — aviso prévio ao MP, operações diurnas, uso proporcional da força —, mas não vedou incursões. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram 4.071 operações notificadas ao MP entre julho/2020 e junho/2024, com aumento de 4,9% nas prisões em flagrante e queda de 52% nas mortes por intervenção policial.
O julgamento final, em abril de 2025, derrubou a exigência de comunicação prévia e a proibição de helicópteros, mas manteve obrigações de transparência: câmeras em viaturas, relatórios detalhados, preservação de locais de crime e ambulâncias em operações planejadas.
Pedro Paulo citou o Mapa Histórico dos Grupos Armados (dez/2025): 4 milhões de pessoas (32,9% da população da Região Metropolitana) vivem sob influência de tráfico, milícia ou narcomilícia. O levantamento do GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado cobre 22 municípios.
Mercado de trabalho: 600 mil jovens nem-nem e a jornada feminina
Carlos Jordy usou dado da PNAD Educação (junho/2024): cerca de 600 mil jovens de 15 a 29 anos no Rio não estudam nem trabalham. É o pior percentual do Sudeste (17,5%), acima de SP (13,9%), MG (13,6%) e ES (16,2%). Houve redução de 274 mil em seis anos, mas o gargalo persiste.
Benedita da Silva disse que mulheres trabalham “10 horas a mais que os homens” em afazeres domésticos. O IBGE (2022) aponta 21,3 horas semanais para mulheres contra 11,7 para homens — diferença de 9,6 horas. #FATO.
Apostas, emendas e milícias: os bastidores que ninguém explica
Jordy atribuiu a Lula a legalização das bets e do “tigrinho”. A linha do tempo mostra: Lei 13.756/2018 (Temer) legalizou apostas de quota fixa; prazo de regulamentação venceu em dez/2022 (governo Bolsonaro); PL de regulamentação enviado por Lula em jul/2023; Lei 14.790/2023 sancionada em dez/2023 com cassinos online incluídos pela Câmara; portaria de jul/2024 regulou jogos ao vivo. #NÃOÉBEMASSIM.
Mônica Benício denunciou emenda de R$ 199.999,78 de Flávio Bolsonaro (PL) ao Instituto Formação Profissional José Carlos Procópio, a pedido de Robson Calixto (“Peixe”), miliciano condenado pela morte de Marielle Franco. Mensagens de WhatsApp no celular do miliciano comprovam a negociação em nov/2023. Relatório do TCU (2025) aponta indícios de desvio: a empresa contratada para coordenar o projeto esportivo prestava “serviços advocatícios”. #FATO.
ICMS e IPVA: por que o RJ tem uma das maiores cargas do país
Waguinho comparou alíquotas: ICMS modal de 22% no Rio (3º maior do país, atrás de MA com 23% e PI com 22,5%) e IPVA de 4% contra 2% no Espírito Santo. A checagem confirma ambos os números. A carga do RJ inclui 20% de ICMS padrão mais 2% para o Fundo Estadual de Combate à Pobreza (FECP).
- ICMS modal: MA (23%) > PI (22,5%) > RJ (22%) > AL/BA/PE (20,5%)
- IPVA (carros de passeio): RJ 4% | ES 2%
Para quem opera no varejo, na indústria ou na logística fluminense, a diferença de 2 pontos percentuais no IPVA e a alíquota modal elevada do ICMS impactam diretamente formação de preço e competitividade interestadual.
O que observar daqui para frente
Três frentes merecem monitoramento contínuo: (1) a tramitação da nova lei do FPE no Congresso — o prazo vence em junho de 2027 e definirá a capacidade de investimento dos estados; (2) a implementação das regras da ADPF 635 após o julgamento de 2025, especialmente câmeras corporais e relatórios de operações, que alteram a dinâmica de segurança na Região Metropolitana; (3) a regulamentação completa do mercado de apostas e seu efeito fiscal, já que a taxação de 12% sobre receita bruta das operadoras e 15% sobre prêmios líquidos começa a entrar na base de arrecadação. O cenário fiscal do Rio, oscilando entre déficit e superávit anual, continuará sensível a essas variáveis.
