Trinta deputados e um senador americanos formalizaram, nesta quinta-feira (29), uma cobrança direta ao secretário de Estado Marco Rubio: a atual política dos EUA para o Brasil está minando décadas de parceria. A carta expõe um conjunto de medidas adotadas desde 2025 que, na visão dos signatários, configuram interferência indevida no processo democrático brasileiro.
O que diz o documento entregue ao Departamento de Estado
O texto aponta três eixos de atuação do governo Trump que teriam cruzado a linha da pressão diplomática legítima. Primeiro, duas rodadas de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros — medidas que atingem setores exportadores sensíveis e geram incerteza para cadeias produtivas integradas.
Segundo, sanções direcionadas a ministros do Supremo Tribunal Federal, incluindo Alexandre de Moraes, e a integrantes do governo Lula. A justificativa oficial americana para tais sanções não é detalhada na carta, mas os parlamentares veem nelas uma tentativa de constranger o Judiciário e o Executivo brasileiros.
Terceiro, a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais. Embora o combate ao crime organizado seja interesse comum, a classificação unilateral sem coordenação prévia é vista como ingerência em matéria de segurança interna.
Impacto direto na relação bilateral
Os signatários argumentam que a soma dessas ações coloca em risco a “parceria estratégica” — termo usado historicamente para descrever a cooperação em defesa, comércio, energia e ciência. O Brasil é o maior parceiro comercial dos EUA na América do Sul, com fluxo bilateral superior a US$ 80 bilhões anuais.
Empresas americanas com operações no Brasil — de manufatura a tecnologia — já relatam dificuldades de planejamento diante da volatilidade tarifária. Do lado brasileiro, há preocupação com eventuais retaliações que atinjam investimentos em infraestrutura e transição energética.
Por que a carta tem peso político
- Reúne parlamentares de diferentes comissões: Relações Exteriores, Forças Armadas, Comércio
- Inclui um senador, o que eleva o perfil do documento no Congresso
- Endereçada diretamente ao secretário de Estado, não à Casa Branca — sinal de que o Legislativo quer acompanhar a execução da política externa
Mas o efeito mais relevante aparece na sinalização para aliados regionais. A percepção de que Washington pode usar ferramentas econômicas e jurídicas contra democracias parceiras abre precedente perigoso para a credibilidade americana no Hemisfério Sul.
Cenários para os próximos meses
Três desdobramentos merecem atenção imediata. Se o Departamento de Estado responder formalmente, o teor da resposta indicará se há disposição para recalibrar a abordagem. Se não houver resposta, o Congresso pode avançar com audiências públicas ou condicionamento de recursos diplomáticos.
No Brasil, o governo Lula deve decidir se formaliza queixa na OMC sobre as tarifas e se busca mediação via OEA. Já o STF, alvo das sanções, mantém silêncio público — estratégia que pode mudar se houver novos desdobramentos.
O que observar daqui para frente
Para quem opera no corredor Brasil-EUA, três indicadores funcionam como termômetro: a tramitação de projetos de lei no Congresso americano que vinculem ajuda ou cooperação a condições políticas; a agenda de visitas oficiais de alto nível nos dois sentidos; e a disposição de ambos os lados em manter grupos de trabalho técnicos — comércio, defesa, clima — blindados da tensão política. A parceria sobrevive a ruídos, mas exige manutenção deliberada.
