Mensagens obtidas pela Polícia Federal revelam que a cúpula do Banco de Brasília acelerou operações com o Banco Master mesmo diante de alertas internos sobre risco de quebra e irregularidades documentais. A pressa em assinar contratos, segundo a PF, expôs a instituição a um rombo bilionário que ainda não foi totalmente contido.
O relatório policial aponta que, entre julho e novembro de 2024, ex-dirigentes trocaram comunicados admitindo a fragilidade do parceiro — e, ainda assim, determinaram o avanço das aquisições de carteiras. Por que a direção ignorou os próprios sinais de alerta?
A pressa que levantou suspeitas da PF
Diálogos recuperados mostram o então presidente Paulo Henrique Costa pressionando o diretor financeiro Dario Garcia para fechar tudo o que fosse possível em um único dia. “Precisamos assinar tudo o que pudermos. Acredito que de hoje não passará”, escreveu Costa. A resposta do subordinado — “Vixi ‘maria'” — resume a tensão do momento.
Para os investigadores, a urgência não era operacional: Costa teria a convicção de que o Master quebraria nas horas seguintes. A estratégia, portanto, seria blindar o BRB transferindo ativos problemáticos antes do colapso do contraparte.
Em outra frente, o advogado contratado para assessorar a operação, Fabiano Barbosa, classificou a equipe do Master como “complicada”. A réplica de Garcia foi mais dura: “Um bando de F… Picareta é pouco.”
O tamanho do buraco: R$ 16,7 bilhões injetados
A exposição do BRB ao banco de Daniel Vorcaro atingiu cifras astronômicas. Dados do processo indicam:
- R$ 16,7 bilhões injetados no Master entre 2024 e 2025
- R$ 12,2 bilhões em carteiras adquiridas, das quais parte se revelou fraudulenta ou sem lastro
- R$ 10,5 bilhões posteriormente trocados por ativos considerados “hígidos” pela defesa
A compra do controle acionário foi barrada pelo Banco Central. Quando a Operação Compliance Zero eclodiu, em novembro de 2025, o BRB já acumulava a pior crise de sua história.
Consequência direta: prisão e pedido de socorro ao Tesouro
Em abril de 2025, Paulo Henrique Costa foi preso preventivamente. A PF sustenta que ele permitiu negócios sem lastro e fora das práticas de governança, “tendo por muitas vezes que se desdobrarem contabilmente para satisfazer as vontades do Master”.
Como o governo do Distrito Federal é acionista majoritário, o prejuízo respinga no erário público. A administração local tenta agora um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para recompor o patrimônio do banco. O governo federal já negou garantia à operação, mas o DF insiste na negociação.
A versão da defesa e os pontos que permanecem em aberto
Os advogados de Costa alegam que, tão logo tomaram conhecimento de créditos gerados fora do ambiente Master, a aquisição de carteiras foi interrompida e garantias de R$ 25 bilhões foram constituídas. Afirmam ainda que a PF “erra quanto aos fatos”.
O que não está esclarecido: qual a extensão real dos ativos “hígidos” recebidos na troca? Haverá novas fases da investigação alcançando outros executivos ou conselheiros? E, principalmente, como o DF vai equacionar o buraco sem aval da União?
O que observar daqui para frente
Três frentes ditam o desfecho nos próximos meses: o andamento da ação penal contra os ex-dirigentes, a auditoria independente que o BRB contratou para dimensionar as perdas reais e a negociação política pelo aporte de R$ 6,6 bilhões. Se o empréstimo não sair, a capitalização do banco dependerá de venda de ativos ou de novo aporte dos cofres distritais — cenário que pressiona o orçamento do DF em ano pré-eleitoral. Investidores e credores do BRB devem monitorar os relatórios trimestrais e as decisões do Banco Central sobre a continuidade da instituição.
