As importações de pequenos pacotes vindos de sites como Shein, Shopee e AliExpress saltaram 67% entre junho e agosto deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025. O dado, da Receita Federal compilado pela Abit, expõe o efeito imediato da revogação do imposto de importação de 20% sobre encomendas de até US$ 50.
Foram US$ 1,61 bilhão (R$ 8,2 bilhões) em mercadorias em apenas três meses. A pergunta que fica: quanto desse volume representa desvio de demanda da indústria nacional?
O salto nos números que assusta o varejo
Olhando apenas para agosto, a alta chega a 74%. Foram 26,5 milhões de pacotes desembaraçados pelo Remessa Conforme contra 15,2 milhões no mesmo mês do ano passado. O programa da Receita contabiliza não só itens isentos, mas toda remessa que passa pelo canal simplificado.
Para o empresário do varejo físico ou da indústria, o recado é claro: a concorrência direta ganhou fôlego extra justo no momento em que o crédito caro e o frete alto apertam as margens internas.
Indústria têxtil perde 13 mil vagas formais
A Abit aponta que o setor responde por até 40% das remessas importadas por consumidores finais. O reflexo aparece na produção: julho registrou queda de 6,8% na indústria têxtil e 8,2% na confecção frente a julho de 2025. Até junho, mais de 13 mil postos de trabalho com carteira assinada já haviam sido fechados.
- Produção têxtil: -6,8% (jul/26 vs jul/25)
- Confecção: -8,2% no mesmo período
- Empregos formais perdidos: >13 mil até junho/26
Fernando Pimentel, presidente da Abit, resume: “Estamos vivendo uma tempestade perfeita”. Ele cita, além do fim da taxa federal, o avanço das importações convencionais (feitas por varejistas), a retração do mercado interno, juros elevados e custo de frete.
O que sobrou da tributação e o que pode mudar
A medida provisória que zerou o imposto federal foi sancionada em maio e confirmada pelo Congresso em setembro, a 24 dias das eleições. Mas o ICMS estadual — entre 17% e 20% — segue em vigor sobre essas compras.
A indústria pressiona por isonomia: se não há vontade política para restaurar o imposto de importação, que se zerem PIS e Cofins na produção nacional. O Ministério da Fazenda não se manifestou até o fechamento desta edição.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o próximo capítulo: a velocidade de adaptação do varejo nacional ao novo patamar de concorrência, eventuais ajustes no ICMS pelos estados e a trajetória da taxa Selic. Para quem investe ou empreende no setor, monitorar o fluxo do Remessa Conforme mensal virou indicador antecedente de demanda — e de risco.
