A Blaze protocolou na Justiça do Distrito Federal os detalhes financeiros de seu acordo com a influenciadora Virginia Fonseca: aproximadamente R$ 100 milhões em repasses a suas empresas e comissão a uma agência sediada no exterior. O documento foi entregue em 20 de agosto, véspera do comunicado público em que a criadora de conteúdo anunciava o encerramento da parceria.
A movimentação ocorreu no âmbito de uma ação civil pública do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) que apura práticas consideradas abusivas na captação de apostadores. A plataforma pediu sigilo sobre os valores, mas o teor vazou para as partes envolvidas.
O que está nos autos da ação civil pública
A promotoria acusa a casa de apostas de utilizar padrões enganosos e técnicas de gamificação para induzir consumidores vulneráveis ao risco. Como prova, juntaram ao processo publicações de Virginia e peças de marketing interno obtidas após investigadores se infiltrarem na base de jogadores cadastrados.
Foi a partir desse material que os promotores solicitaram acesso aos contratos firmados com a influenciadora. A defesa de Virginia nega que ela recebesse percentual sobre as perdas dos usuários — prática apelidada de “taxa da desgraça” durante a CPI das Bets no Senado.
Segundo a bet, a remuneração foi estruturada em um valor inicial na assinatura do contrato mais parcelas mensais fixas ao longo de 18 meses, com início em julho de 2024. Os pagamentos fluíram para três destinatários:
- Talismã — agência de propriedade da influenciadora;
- Empresa individual — CNPJ em nome de Virginia;
- Viral Nation — agência com sede em Barbados e subsidiária no Brasil, responsável por 15% de intermediação.
Os advogados da influenciadora afirmam que houve ainda um aditivo por ações promocionais durante a Copa do Mundo da FIFA, não confundível com comissões por desempenho.
A engenharia financeira por trás da parceria
A Viral Nation atua desde 2021 como ponte entre a Blaze e criadores de conteúdo de grande alcance. Segundo a defesa da plataforma, a intermediação atende a prática consolidada de mercado: triagem de perfis, verificação de métricas objetivas de audiência, supervisão de cronogramas e alinhamento de diretrizes de marca e conformidade legal.
O diretor da agência no Brasil, Fábio Marcondes Gonçalves, declarou que a atuação se limitou à intermediação de contratos publicitários. A assessoria de Virginia reforça que todos os pagamentos ocorreram em território nacional, com emissão de notas fiscais e cumprimento da legislação tributária.
Mas a investigação derrubou a narrativa de que a operação seria “descentralizada e sem acionistas de referência”. Um vazamento de dados da autoridade de jogos de Curaçao, reivindicado pela hacker berlinense Lilith Wittmann, expôs os fundadores: o holandês Nick van Gorsel e o americano Nicholas Beugg. As operações centrais ficam em Malta; as licenças pré-regulação eram da Prolific Trade N.V.
Os números que mostram a máquina de lucro da Blaze
O balanço apresentado nos autos revela a escala da operação no Brasil entre janeiro e novembro de 2024:
- Depósitos de jogadores: R$ 11 bilhões
- Receita bruta (antes de impostos): R$ 1,9 bilhão
- Receita líquida (após bônus): R$ 1,1 bilhão
- Lucro líquido: R$ 361 milhões (margem de 33%)
- Dividendos remetidos ao exterior: R$ 350 milhões
Os principais custos operacionais deixam clara a estratégia de aquisição e retenção:
- Bônus diretos: R$ 89 milhões
- Programas de fidelidade (newsletters e “textos-foguetes”): R$ 388 milhões
- Publicidade externa — influenciadores, impulsionamento, mídia tradicional: R$ 330 milhões
Em contrapartida, a folha de salários somou apenas R$ 8,6 milhões no período.
Por que isso importa para o mercado de apostas regulado
O caso expõe três vetores que devem ditar a fiscalização do setor nos próximos meses: a transparência dos fluxos financeiros entre plataformas e influenciadores, a legalidade de estruturas societárias offshore para recebimento de comissões e a definição do que configura “indução ao jogo” versus publicidade legítima.
A regulação brasileira em vigor exige que operadores tenham sede no país e licença do Ministério da Fazenda. A Blaze ainda não consta na lista de autorizadas. O desfecho da ação civil pública pode estabelecer precedentes para multas baseadas na receita bruta — no caso, cerca de R$ 1,4 bilhão, segundo a própria empresa.
O que observar nos próximos capítulos
Três frentes merecem acompanhamento contínuo por investidores e gestores de risco: (1) a decisão judicial sobre o sigilo dos contratos e eventual quebra de sigilo bancário da Horangi Trading, instituição cipriota citada nos autos como canal de pagamentos internacionais; (2) o posicionamento da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) sobre a regularidade de intermediadoras sediadas em paraísos fiscais; (3) a adesão de outras grandes plataformas às regras de transparência de marketing de influência, sob pena de sanções administrativas.
O contrato de Virginia com a Blaze expirou, mas a esteira de divulgação que moveu R$ 330 milhões em publicidade no ano passado continua operando — agora sob lupa regulatória.
