A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) estendeu até a próxima sexta-feira (25) o prazo para empresas brasileiras submeterem propostas à chamada Finep Mais Inovação Brasil – Rodada 2 – Mobilidade Sustentável. São R$ 203,8 milhões em subvenção econômica — recursos não reembolsáveis — destinados a projetos de alto risco tecnológico. Mas há um detalhe que pode definir quem leva o dinheiro: 30% do orçamento está reservado para iniciativas com atividades principais no Norte, Nordeste ou Centro-Oeste.
O edital exige parceria obrigatória com pelo menos uma Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT). Para o diretor de Inovação da Finep, Elias Ramos, a prorrogação busca “somar forças” entre setor privado e academia. A pergunta que fica: sua empresa tem estrutura para montar esse consórcio a tempo?
Quatro frentes, orçamentos assimétricos
Os projetos precisam se enquadrar em uma das quatro linhas temáticas. A distribuição dos recursos revela onde a Finep aposta mais fichas:
- Linha 1 – Mobilidade Aérea: R$ 132,8 milhões (65% do total). Foco em aeronaves leves, descarbonização, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), voo autônomo e vertiportos.
- Linha 2 – Mobilidade Aquaviária: R$ 37,7 milhões. Propulsão elétrica e híbrida para transporte de cargas e passageiros de baixa emissão, voltado ao lazer.
- Linha 3 – Mobilidade Metroferroviária: R$ 33,3 milhões (combinado com Linha 4). Digitalização, segurança de vias e tração limpa em ferrovias.
- Linha 4 – Micromobilidade: R$ 33,3 milhões (combinado com Linha 3). Bicicletas e triciclos de baixa emissão para carga ou passageiros (excluído lazer), sistemas de compartilhamento e infraestrutura urbana.
A concentração na aviação não é por acaso. O setor responde por uma fatia crescente das emissões de transporte e carece de rotas tecnológicas maduras para descarbonização. O SAF e a mobilidade aérea avançada (eVTOLs, vertiportos) atraem capital de risco global — e a Finep quer posicionar o Brasil nessa cadeia.
O que muda para quem atua fora do eixo Rio-São Paulo
A reserva de 30% para Norte, Nordeste e Centro-Oeste não é mero gesto político. Ela altera a competitividade do edital. Empresas sediadas nessas regiões — ou que planejam executar a maior parte do projeto nelas — disputam um pote de aproximadamente R$ 61 milhões com menos concorrentes das capitais tradicionais.
Na prática, isso significa que uma proposta de micromobilidade para Belém ou de mobilidade aquaviária para o Pantanal entra com vantagem estatística. Mas atenção: a exigência de parceria com ICT permanece. Universidades e institutos de pesquisa regionais ganham protagonismo como ponte para acessar o recurso.
Risco tecnológico: o filtro invisível
O edital deixa claro: só entram “projetos altamente inovadores e de risco tecnológico”. Incrementalismo — melhorar um motor existente, otimizar uma rota — não passa. A Finep busca saltos: novos materiais para fuselagem, sistemas de controle autônomo, arquiteturas de recarga ultra-rápida, hidrogênio verde embarcado.
Para o empresário, isso impõe dois desafios. Primeiro, a proposta técnica precisa demonstrar fronteira do conhecimento, não aplicação madura. Segundo, o plano de mitigação de risco tecnológico será avaliado com lupa. Quem nunca submeteu projeto a subvenção econômica costuma subestimar o nível de detalhe exigido na matriz de riscos e no plano de contingência.
Cronograma apertado: o que fazer nos próximos dias
Restam poucos dias úteis. Se a empresa ainda não tem ICT parceira definida, o caminho mais realista é procurar instituições com histórico de projetos Finep aprovados — elas conhecem a burocracia e os formulários. Muitas mantêm escritórios de inovação ou núcleos de transferência de tecnologia prontos para atuar como contraparte.
Outro ponto crítico: o orçamento do projeto deve ser fechado com precisão. Subvenção econômica não cobre 100% dos custos. A contrapartida da empresa (financeira ou em bens/serviços) precisa estar documentada e aprovada internamente antes da submissão. Atrasos na assinatura de termo de compromisso entre parceiros são a causa mais comum de desclassificação na fase de habilitação.
O que observar daqui para frente
Após o fechamento do edital, a Finep deve divulgar o cronograma de análise — geralmente 60 a 90 dias para resultado preliminar. Empresas aprovadas entram em fase de contratação, onde ajustes no plano de trabalho e no orçamento são frequentes. Quem já tem projeto estruturado para as linhas 3 ou 4 (metroferroviária e micromobilidade) encontra menos concorrência por real disponível: as duas linhas somam R$ 33,3 milhões, mas atraem propostas mais pulverizadas e de ticket médio menor.
Para quem ficar de fora desta rodada, a Finep sinalizou continuidade do programa Mais Inovação Brasil. Acompanhar as chamadas setoriais — energia, saúde, defesa, transformação digital — permite antecipar a montagem de consórcios e a maturação técnica das propostas. O dinheiro não reembolsável continua sendo a forma mais barata de capital de risco para inovação radical no Brasil. Quem domina o jogo dos editais leva vantagem competitiva que não aparece no balanço, mas decide quem lidera o mercado daqui a cinco anos.
