O investimento médio em inteligência artificial no Brasil saltou para US$ 20,8 milhões em 2026, alta de 46% em relação ao ciclo anterior, mas três em cada quatro companhias ainda esbarram na qualidade dos dados para transformar esse aporte em resultado real. O dado vem de estudo inédito apresentado durante o maior evento de tecnologia empresarial do país.
O SAP NOW AI Tour Brazil 2026 reuniu mais de 4,2 mil executivos e especialistas em São Paulo nos dias 9 e 10 de setembro. A edição de número 31 mostrou que a promessa da “empresa autônoma” — onde a IA executa e coordena tarefas sob supervisão humana — já saiu do papel, mas exige fundações que a maioria ainda não construiu.
Agentes deixam o piloto automático e entram na operação
O grande salto desta edição foi a demonstração prática de agentes de IA conectados a dados, aplicações e processos corporativos. Diferente de chatbots isolados, esses sistemas acessam sistemas de gestão, respeitam permissões e sabem quando escalar para um humano.
No Agent Lab, espaço montado com dez estações de Joule Studio 2.0, participantes criaram agentes funcionais em 30 minutos — tarefa que, no modelo tradicional, consumiria cerca de quatro meses. A aceleração vem da capacidade de descrever a lógica em linguagem natural e ter o código gerado, testado e integrado na hora.
Rui Botelho, CEO da SAP Brasil, resume a mudança: a IA deixa de atender casos isolados e passa a participar de processos completos, com contexto e governança. A pessoa define a estratégia; a máquina amplia a capacidade de execução.
O gargalo invisível: dados sujos custam caro
O estudo “The Value of AI: Brazil 2026”, conduzido com a Oxford Economics junto a 2.600 líderes em 13 países (200 no Brasil), expõe o paradoxo: o retorno médio subiu de 16% para 19% (equivalente a US$ 5,5 milhões), porém 75% das empresas brasileiras apontam qualidade ou disponibilidade de dados como barreira para escalar.
Outros números que desenham o cenário atual:
- 26% das tarefas já contam com apoio de IA hoje; a projeção para dois anos é 44%.
- Apenas 18% adotam a tecnologia de forma estratégica e integrada.
- 80% relataram respostas de baixa qualidade da IA, gerando retrabalho, atrasos ou acúmulo de demandas.
Ou seja: a tecnologia acelera, mas a matéria-prima — dados limpos, integrados e governados — ainda é o freio de mão.
Gente preparada é o próximo gargalo
Não basta ter dados e ferramentas. O estudo revela que 65% das companhias brasileiras veem a falta de habilidades especializadas como entrave para gerar valor com IA. Apenas 12% se consideram totalmente preparadas para governar a tecnologia; 15% dizem ter processos e estruturas prontos.
Essa lacuna explica por que muitas iniciativas ficam no piloto: sem quem desenhe a arquitetura de governança, defina limites de autonomia e monitore vieses, o risco de alucinação e vazamento de informação sobe — e a confiança do negócio cai.
IA sai do back-office e entra no palco
Uma das aplicações mais inusitadas do evento veio da São Paulo Escola de Dança. Em parceria com a SAP e a Associação Pró-Dança, a instituição desenvolve agentes que apoiam a criação coreográfica: testam movimentos, adaptam coreografias a diferentes palcos e formações de bailarinos, usando textos e desenhos dos artistas como contexto.
O sistema não substitui o coreógrafo nem a interpretação dos bailarinos. Ele expande o repertório de possibilidades, permitindo simular cenários em minutos — o que, no ensaio físico, levaria horas. O exemplo ilustra o princípio da empresa autônoma: IA como copiloto especializado, humano no comando criativo.
O que observar daqui para frente
Três movimentos vão ditar o ritmo dos próximos trimestres: a consolidação de plataformas que unifiquem dados, agentes e governança nativa; a corrida por talentos capazes de arquitetar e auditar esses sistemas; e a pressão regulatória por transparência e explicabilidade nas decisões automatizadas.
Empresas que tratarem dados como ativo estratégico — com dono, qualidade medida e ciclo de vida gerenciado — colherão o ROI prometido. As demais continuarão comprando Ferraris para andar em ruas de terra.
